16.1.06

Perguntei a uma abelha porque ela fazia mel, me disse que não tinha tempo para responder.
Repeti a pergunta à que parou logo na flor ao lado, e me deu a mesma resposta
e voou com pressa murmurando ; -Somos abelhas, fazemos mel !
‘A terceira perguntei se jà havia pensado em parar de trabalhar na produção de mel,
ela respondeu irritada com a pergunta sugestiva ;
- Não. Gosto de ser uma abelha !
Então quis saber se alguma delas não fazia este trabalho;
- Vossa Majestade, a Rainha, não trabalha com a gente.
- Então o que ela faz ?
- Ela reina.
Quis saber para que ela reinava e a resposta parecia 'obvia, para assegurar a otimização
da produção de mel.
Fiz com que me levasse à rainha, pensei em pedir educadamente uma audiencia, e assim
aconteceu.
A abelha rainha veio até mim. Era maior que as outras, parecia mais velha também, expliquei
as minhas indagações, minha inquietação. Afinal porque a produção de mel era tão importante
e porque todas aquelas abelhas aceitavam o trabalho tão àrduo com tanta boa vontade, porque
não enxergavam nada além daquilo. E por fim, porque aceitavam se subordinar diante dela.
A rainha ouviu atentamente, me olhou nos olhos com um leve sorrisso no canto da boca,
um sorrisso de abelha,como que contente com as perguntas de grande importancia, mas surpresa
com a minha ingenuidade, de quem não encontra as respostas mais simples. E o que se seguiu foi a
aurora de um novo tempo para mim, a resposta estava la e não poderia jamais me esconder dela,
e dizia muito sobre quem sempre fazia as perguntas;
- Me admira alguém capaz de fazer perguntas tão importantes, e de se preocupar tanto com elas ,
parecer tao longe de uma resposta. Espera demais das respostas, talvez por isso prefira não encontra-las,
e fica com as perguntas, contente de fazer perguntas, se julga perspicaz. Devia se perguntar o que tantas
perguntas tem lhe trazido. Mas vou responder porque todas essas abelhas fazem mel, esta é a coisa
mais importante da vida delas, elas sabem o que fazer, são importantes, e vivem para isso. São leais e
subordinadas a mim porque dou a elas aquilo que tanto procura e não acha, sentido.
De um sentido a vida e ela segue. Assim são as abelhas, assim são voces!

27.11.05

o mundo na janela

Chovia fraco, fazia frio, a menina desenhava um rosto feliz na janela, no suor que logo escorreria e apagaria tudo.
Não dava atenção ao som da TV que anunciava alguma guerra terrivel que acabava de começar, em algum lugar muito longe
dali. Na poltrona, alguém muito velho parecia não se surpreender, como alguém que jà viu muitas guerras começarem, como quem
jà soube pela TV que muitas guerras começaram e algumas continuam, veterano de tragédias contadas. Cansado das velhas novidades,
mudava de canal e tudo parecia não dizer nada, via idiotas que faziam qualquer coisa por dinheiro e também grandes personalidades que
faziam o mesmo. Desligou.
Olhou ao redor, a menina havia adormecido em baixo da janela. O rosto no vidro, agora desbotado, ainda parecia feliz. O velho sorriu ao ver o desenho
que tantas vezes jà havia feito, hà tantos invernos passados. Se ajoelhou e beijou os cabelos da neta, como quem dà uma benção, levou o dedo à janela
e escreveu logo acima do rosto contente; o mundo é dos fortes.

11.6.05

O incompreensível, incompreendido.

Quero lhe dizer tudo que não disse até hoje. Talvez não consiga, ou não consegui ainda, organizar em palavras o que sinto, não é tarefa fácil. Mas ninguém mais pode tentar fazê-lo. Portanto cabe somente a mim cumprir este legado. Não falo, muitas coisas que gostaria de dizer me ficam presas à garganta, posso sentir fisicamente tal peso em meu corpo.
Na minha caverna, no meu subsolo, neste porão que só eu tenho as chaves, tudo me parece muito bem. Tenho o que quero, e quando mudo de idéia (o que acontece frequentemente), pronto, tudo está mudado. Aqui faço as leis e aqui julgo tudo. Sem piedade faço piada de tudo que me parece patético, e condeno aquilo que não tolero , sem justificativas (me reservo este direito). Só as minhas certezas valem neste locus . Neste ponto se torna nebuloso de onde vem tais certezas, e não cabe senão a mim julgar a validade das mesmas. Onde tudo deveria me servir e caber muito bem , um canto particular onde acreditei tudo funcionar em perfeita harmonia
( tudo pautado em perfeito raciocínio, calculado meticulosamente), eis que aparecem as tais certezas bizarras.
Certezas são areia movediça, admito. A dúvida nos move em alguma direção, nos dá algum sentido, e quando deparo com uma dúvida monstruosa, uma muralha, percebo que não se trata de dúvida mas sim de uma certeza às avessas, construída por mim mesmo no meu mundo bizarro , neste porão imundo onde passo a maior parte do tempo. Recluso. A luz entra por uma fresta e traz um pouco de claridade a este lugar cheio de mofo, a ‘vida viva’ (pego o termo emprestado, bem como a imagem do subsolo, porque são perfeitos neste caso) pulsa lá fora. Certezas são os tijolos desta fortaleza, muito bem fixados pelo medo, uma espécie de cimento que torna toda a estrutura tão sólida e firme, paredes fortes, de mais de dois metros, de um cinza opaco.
Posto que as certezas, ou o que acredito seja certo ou não, me conduzem a algum lugar, acreditava que me serviam de alguma maneira. Daí outra certeza me encara sem hesitação. Não há onde chegar, não importa onde se vai, tudo o que importa é o caminho. A vida não é mais que caminhar, o caminho é tudo. Viver.
Mas porque e para onde ir se questiono o objetivo(?). Posso deliberadamente escolher acreditar em alguma coisa porque penso que me faria bem ?! Trato da mesma maneira a fé. Ainda não falei dos desejos. O desejo nos move. Não sei nada sobre desejo, tampouco sei sobre qualquer coisa que escrevi até agora, e sei que tudo pode soar muito primário. O desejo me move (não pretendo estrapolar meus devaneios a todos ), é tudo que sei sobre ele. Desejar é um exercício de frustração (não aqui no meu porão!). Neste momento a luz através da fresta se torna intensa e ilumina todo o lugar, quero olhar lá fora, quero estar lá fora mais uma vez. Estou certo agora que seria melhor para mim estar lá. Fosse como fosse. Olho ao redor e encontro a porta que não procurava a algum tempo, forço mas parece não ceder. Alguém bloqueou com cimento. Maldito quem fez isso . Odeio quem poderia ter feito tamanha crueldade. E lembro que eu mesmo construí este lugar. Minha mente silencia e me satisfaço com autocríticas tão perspicazes, lembro da satisfação das primeiras vezes que estive aqui, quando entrava e saía sem dificuldade. Mas já não sei ao certo porque vim aqui das primeiras vezes e como este lugar veio a se tornar minha cela. Consciência é dor , mas só ela pode me tirar daqui.(?).
Escrevo, e o cimento parece tomar conta do lugar, não sei de onde escorre, parece escorrer das paredes. Minhas pernas já estão paralisadas, os movimentos se tornam mais lentos e já não tiro os olhos da fresta. A ‘vida viva’ pulsa lá fora. Parece boa, às vezes. Ainda não falei do amor.

menina na calçada

A menina olha o mar por alguns instantes e logo se perde em pensamentos, a vastidão do oceano fascinava a menina de camisa verde e a fazia se sentir pequena, qual grão de areia, gota d’água, de lágrima e chuva. Tão bonito e tão maior que ela.
A menina dos pés descalços olhou para o chão e se intrigou com a gigantesca fila de minúsculas formigas que vinham sabe-se lá de onde e entravam organizadamente numa fenda do calçadão, todas carregando pedaços de folha que pareciam maiores que elas. A menina dos olhos castanhos se admirava com tamanho esforço e por mais alguns instantes observou aqueles seres em miniatura, e logo se sentiu grande e superior. Mas as formigas eram totalmente alheias a presença da menina com cicatriz na testa, que se incomodou naquela constatação, mas o que a incomodava de verdade era o fato daqueles seres tão pequeninos saberem exatamente o que fazer. Abraçavam seu destino e seguiam em frente transpondo os obstáculos mais improváveis, por maiores que fossem. Nem todo o conhecimento e pensamento lhe permitiu tal experiência e agora se sentia menos importante que qualquer uma daquelas formigas que simplesmente a ignoravam. Escolheu uma delas e a seguiu, pensou que poderia matá-la, tinha grande poder agora e podia escolher sobre a vida e a morte.
Esmagou com o polegar a escolhida, definindo seu destino, sem se sentir capaz de mudar o seu próprio. Todas as outras formigas continuavam sabendo exatamente o que fazer. A menina sem casa, não.

6.12.04

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